SOBRE HÉLIO E OS HELICÓPTEROS
Um helicóptero da polícia abatido a tiros, doze vidas ceifadas e cinco ônibus incendiados no Morro dos Macacos, Zona Norte da capital fluminense. No nebuloso sábado do dia 17 de outubro, a eclosão de mais um episódio da guerra civil que aflige o Rio de Janeiro eclipsou o incêndio que teria destruído 90% da obra de Hélio Oiticica, ocorrido na noite do dia 16, na Zona Sul. Dois eventos que se relacionam de modo dramático, paradoxalmente unidos pelo apartheid que domina a geografia da Cidade Maravilhosa e pela ambigüidade semântica da marginalidade: do crime e da vanguarda estética.
Apesar da casca craquelada que confere algum lustro ao nosso reduzido plantel de gente formada na alta cultura – esse grêmio de tantos embusteiros e pedantes –, na República dos Bruzundangas reina mesmo é a indigência. Eu que já conheci não um, mas vário(a)s artistas brasileiros que militam o deslumbramento tardio pelas vanguardas e a convicta ignorância da tradição, posso atestar isso com uma certeza constrangida. É, portanto, absolutamente normal que poucos se abalem com o incêndio que destruiu ou ameaçou uma parte considerável da obra de Oiticica, recolhida à casa de um irmão no bairro Jardim Botânico, por mesquinharia dizem uns, por prudência, outros.
Nesse mesmo instante, círculos de pernósticos e especuladores do mercado de arte trocam cálculos e telefonemas, tramando homenagens, revisando tabelas e agendas de galerias cujos beija-mãos e vernissages são disputados pela fina flor capaz de processar, a custo de muito verbo e pose, os impasses da arte contemporânea. E entre lamentos e estimativas de majoração, talvez até alguém indague por que, afinal de contas, entre tantas mamatas editalícias, museu algum, por humilde que fosse, não albergou em boas condições a obra de Hélio, que morreu em 1980.
De nosso minúsculo plantel de relevâncias, Hélio tornou-se incontestavelmente o artista plástico de maior projeção no exterior desde que expôs em Londres, em 1965, lado a lado com nomes da estatura de Marcel Duchamp, Paul Klee, Vassily Kandinsky e Piet Mondrian. Muitos, porém, jamais estiveram perfeitamente convictos de que a obra dele mereça o estardalhaço que tantas vezes lhe conferem. Ainda mais quando sua consagração como artista nada estranhamente coincide com os privilégios da sua condição de bem nascido e bem relacionado. Mas de fato isso agora pouco importa. Hélio tornou-se parte do cânone e se você nunca ouviu falar de parangolés, bólices e penetráveis, procure alguma informação, por exemplo, sobre a Mostra Nova Objetividade Brasileira, ocorrida em abril de 1967 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde foi exposta a instalação Tropicália.
No lugar de um necrológio das obras perdidas em holocausto, quero então explorar as articulações entre arte, crime e periferia que pioneiramente Hélio buscou. Freqüentador e passista da Mangueira, Oiticica foi precursor entre os artistas plásticos que dirigiram suas atenções aos morros e aos seus personagens. O caso mais célebre é o do Cara de Cavalo, alcunha de Manoel Moreira, um punguista, pequeno traficante e cafetão de 23 anos, originário da antiga favela do Esqueleto, que praticava também assaltos com finalidades distributivas de um Robin Hood. Acusado da morte de um policial (dizem que injustamente), ele foi caçado e abatido pela polícia com 52 tiros em um esconderijo próximo a Cabo Frio, em 1964. Sobre seu corpo, foi posto um cartaz com um desenho de caveira e tíbias cruzadas e as iniciais EM – Esquadrão da Morte. O Rio mergulhava no sono de uma longa noite de atuação dos grupos de extermínio acobertados pela ditadura e aclamados pelo senso de vingança de parte da população. Um sono do qual só começaria a despertar com a chacina da Candelária, em 1993.
Em sua Homenagem a Cara de Cavalo (bólide caixa 18, poema caixa 2), de 1966, Oiticica apresentou uma obra multisensorial formada por uma caixa em cujas paredes havia fotos de Manoel Moreira morto, de braços abertos. No interior dessa caixa há uma almofada onde se lê a inscrição “Aqui está e ficará! Contemplai seu silêncio heróico”. Em 1968, a obra evoluiu para um estandarte de fundo vermelho com a estampa do Cara de Cavalo em alto contraste, acompanhada pela inscrição “seja marginal, seja herói”. Brandido em uma manifestação de artistas no Largo General Osório, em Ipanema, para desgosto dos militares de alto coturno, justamente esse estandarte integrou a cenografia do catártico show tropicalista que reuniu Gil, Caetano e os Mutantes na boate Sucata, no Rio de Janeiro, pouco mais de um mês antes da decretação do AI5.
Mas afinal por que o marginal à legalidade não se interessa pelo artista marginal? A resposta a isso é um retrato da desigualdade de nosso regime de acesso aos bens culturais: o artista marginal é a máxima consumação da liberdade dentro dos projetos existenciais do mundo capitalista, realizando o domínio requintado de uma linguagem tão própria que pode até desdenhar do mercado e fazer-se refratária à sua dimensão utilitária; enquanto o segundo marginal, se chega a resolver o problema do pão, sem educação permanecerá condenado à incitação ao consumo e a um exotismo que o converta, no máximo, em uma temática ou em alguma fonte de inspiração, curiosidade ou compaixão.
Tutelado pela institucionalização de um coitadismo emancipatório, esse marginal social torna-se agora o destinatário das benevolências que, ao marcarem com nitidez quem precisa, determinam simbólica e materialmente o lugar superior de quem pode dar. Como venho dizendo, a difusão dessa ética do favor – a troca desigual da benevolência das migalhas pela confirmação da benemerência dos graúdos – bloqueia o florescimento de uma consciência dos direitos e, no seu limite demagógico e eleitoreiro, distribui o pão e converte a cultura destinada aos pobres em um circo de entretenimentos entorpecentes. E às vezes esse circo pega fogo, pois quem já teve em sua mesa o pão que o diabo amassou, não faz cerimônias para cuspir no prato em que comeu.
No prêt-à-porter das identidades, os valores largos e abstratos do discurso liberal são ajustados pelo concretismo ético do crime. Mais do que em qualquer outra circunstância, no crime os valores são exibidos em sua disfuncionalidade prática quando o indivíduo, submetido à manipulação atroz dos desejos, cede ao risco das escolhas tragicamente inevitáveis. Hoje o glamour de uma miséria romântica pranteada ou exaltada pela nata altruísta deu lugar ao exército do tráfico e aos curadores de mostras de arte que operam lavanderias multimilionárias ou agenciam ONGs com propósitos escusos. O vago guevarismo dos favelados em revolta foi suplantado pelo onguismo beneficente, canal de drenagem do dinheiro público para o meio privado sob o véu insuspeito das causas nobres.
Hélio, todavia, com as suas obras sobre o Cara de Cavalo tomou uma posição genuinamente ética a respeito das diferenças entre a violência como revolta e como opressão (vejo aí uma nítida influência de Camus). A densidade de suas entrevistas e dos seus textos críticos permite a conclusão. De mais a mais, naquela época, ainda não se falava de excluídos, nem imperava a semântica dos direitos humanos, esse recinto ecumênico e retórico que a todos reúne sob um mesmo credo abstrato. Hélio declarou certa vez, a propósito do Cara de Cavalo, que "O crime é a busca desesperada da felicidade autêntica, em contraposição aos falsos valores sociais". Ora, a concepção do que seja essa felicidade autêntica convoca idéias de Aristóteles aos economistas do desenvolvimento humano. E entre nós, esse tópico da felicidade também vem ficando a cargo do “Bispo” Macedo e de seus genéricos ou derivados que com extraordinária eficiência têm difundido uma interpretação capciosa do preceito bíblico “nem só de pão viverá o homem” (Mateus 4:4). Segundo a teologia da prosperidade da Igreja Universal, a felicidade merecida nesse mundo pelos homens de boa vontade pode ser mensurada pela quantidade de carnês das Casas Bahia que um cidadão pobre possa honrar mensalmente. Sem almejar ser herói e temendo a pecha da marginalidade, esse cidadão torna-se uma espécie de homem medieval em pleno século XXI: alguém que é encorajado a ver o demônio por toda parte e se vê assim submetido a uma mercancia de indulgências pela qual sistematicamente lhe extorquem falsos donativos propiciatórios devidos à seita que lhe passa um atestado sempre provisório de homem de bem. Se entre a favela e a cadeia faltam as escolas, proliferam-se essas seitas que ainda satanizam o legado das religiões afro-brasileiras ao promoverem alguma ortopedia moral pelo sacrifício da autonomia reflexiva de milhões de indivíduos.
Nas favelas – doravante eufemizadas como comunidades – a celebração do traficante ainda é uma fonte de identidade, orgulho e sucesso. Ou seja: felicidade. O tráfico efetivamente ainda oferece alternativas concretas para o saciamento da fome de quinquilharias de jovens cuja escolarização deplorável praticamente os condena a serem escravizados pelo ideal do consumo que a ânsia por reconhecimento insufla. Porém, entre fundamentalistas e traficantes, é importante dizer que as favelas são formadas por uma imensa maioria de gente que ainda sobrevive submetida à rotulação da periculosidade para que o sistema penal mantenha seu silêncio sobre os grandes predadores que praticam aqueles crimes realmente lesivos à coisa pública. A seleção penal que cria o estigma do marginal e a imunidade dos doutores segue exatamente a mesma lógica que marca os lugares do primeiro como necessitado e do segundo como filantropo desinteressado. Compreender essas relações entre os diversos biomas da sociedade brasileira envolve um exercício de atenção às sutilezas. E no Rio de Janeiro até mesmo Darwin ficaria estupefato com a profusa especiação de tipos humanos que forma a complexíssima cadeia existencial da fauna carioca.
Na semana passada, técnicos do Ministério da Cultura concluíram que 70% da obra de Hélio Oiticica sobreviveu ao incêndio na Zona Sul. Felizmente. Por outro lado, depois da ofensiva das forças policiais nos morros da Zona Norte, o número de mortos saltou de 12 para 42. Chocou-me especialmente a triste imagem de uma mulher que recolhia a um saco plástico cápsulas de fuzil disparadas. Sorrindo ela declarou a um repórter que iria vendê-las para comprar leite. Definitivamente, a brutalização embotadora dos sentidos está por toda a parte. O Governo Federal há pouco anunciou a destinação de verbas especiais para a compra de um novo helicóptero e para a restauração da obra de Hélio Oiticica. Seguimos assim testemunhando a busca da cura do câncer com compressas, como se o mais importante fosse ao cabo o helicóptero abatido. E para além da romantização da miséria, resta a obtusidade dos que imaginam que o apartheid social possa ser resolvido com mais ajutórios e um aumento dos efetivos das tropas da elite, essa fonte de uma suposta honestidade truculenta.
Até que eu completasse essas linhas, câmeras flagraram um homem sendo morto em um assalto no centro do Rio de Janeiro. Essas mesmas câmeras também flagraram que a polícia (formada por homens que recebem um soldo de 900 reais) além de deixá-lo agonizar baleado até a morte, só deteve os assassinos para tomar-lhes os pertences que haviam subtraído da vítima. Comovida com o episódio ocorrido em tempos de atenção olímpica à cidade, a cantora Madonna desembarcou no Rio de Janeiro com o propósito de fundar uma ONG que ensine espiritualidade oriental para crianças carentes. Para se deslocar até o seu hotel em Ipanema, ela declinou o helicóptero que lhe havia oferecido o empresário Eiki Batista. Preferiu dois Mercedes-Benz blindados e uma escolta de batedores da polícia. Ela foi recebida com honras e pompas oficiais pelo Governador do Estado, que empolgado como um carnavalesco em tempos de desfile, declarou: “Madonna é um luxo!”. E se todos aplaudem os beneméritos do estrelato que querem manter nossas crianças entretidas com tambores, artesanatos, futebol e, agora, misticismo indiano, poucos lembram as responsabilidades do Estado na implantação de uma escola que lhes ensine o que é o DNA ou quem foi Portinari.
Recém chegado ao Rio de Janeiro, não me canso de ver o Cristo da janela. Ao redor dele, há muitas vezes alguns helicópteros que ao longe parecem insetos. Mas desde aquele sábado, quando o Cristo se recolhe às nuvens sob a bruma do Corcovado, só me fica a certeza de que a arte de poucos continua valendo muito e a vida de tantos ainda não vale nada. O Cara de Cavalo que o diga.












